segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Sábado... Aleluia !


Provavelmente à essa hora a desesperança chegava ao seu nível mais alto. A sensação de planos frustrados, de perda de vida, de investimento num projeto fracassado bombardeava a cabeça. De repente a essa hora já se pensava no que fazer amanhã, em quais projetos retomar, como se recolocar na vida e na história, como voltar a viver depois de tudo o que viveram. Sim, são 01:28hs do sábado de Aleluia (sábado que precede o domingo de páscoa).
Se a sexta da paixão foi absurdamente dolorida por todos os mal tratos, calúnias, ofensas e pela própria crucificação, alguns, não sei se muitos ou poucos, aguardavam no sábado uma reviravolta. Esperavam acordar no sábado – se é que haviam conseguido dormir na sexta depois de todo aquele episódio – com Jesus chamando-os triunfante, ressuscitando na presença da multidão; ou relatos de espetáculos sobrenaturais ocorridos assim que o corpo de Jesus chegou ao túmulo emprestado de José de Arimatéia. Aguardavam acordar com notícias espetaculares sobre novidades no caso da morte de Jesus. Mas isso não aconteceu. O sábado despertou cinzento, frio, indiferente, comum apesar de tudo de incomum que acontecera no dia anterior. Mas se a manhã não trouxe boas notícias alguns com um pouco mais de fé tinham certeza que o sábado lhes reservaria boas surpresas.
Tomaram seus cafés da manhã e nada. Almoçaram e o máximo que ouviam era ainda sussurros e comentários acerca da crucificação e da aparente fragilidade de Jesus a todo aquele espetáculo de morte. À tarde o sol se punha e nenhuma novidade lhes alcançava. Talvez a noite fosse o momento certo para a “performance da ressurreição”! Mas não. O sábado havia passado e nada de novo lhes fora apresentado. De novo só a certeza de que nada mais iria acontecer. De surpresa só a inércia da realidade. Talvez a essa hora até os mais esperançosos já comentavam sobre seus novos projetos de vida. Os mais fervorosos, ainda indignados, após um dia de inquietação e andanças desconexas começavam a achar descanso na realidade dura da morte daquele que lhes deu uma vida nunca antes imaginada por eles. Talvez uns conseguiam dormir e os outros já pensavam em aproveitar o domingo pra voltar à suas casas, retomar suas vidas, e seguir em frente, sabe-se lá como após tudo o que haviam vivido.
Talvez…
Quando pensamos que o sábado era o dia de descanso não conseguimos chegar perto de imaginar quão tedioso e doloroso foi passar aquele dia sem a distração do trabalho ou mesmo o entretenimento que temos hoje disponíveis. Foi um dia sofrido, vivido remoendo-se o dia anterior e todas as implicações que ele trazia pra suas vidas. Mas se haviam fagulhas de esperança a essa hora elas já deviam ter morrido e dado lugar a realidade que insistia em arregalar-lhes as pálpebras.
A tradição cristã só enfatiza dois pontos da paixão de Cristo: sua morte na sexta e sua ressurreição no domingo, e esquecem de abordar o sábado, que talvez tenha sido o pior dia da vida dos discípulos e de todos os que tiveram contato com a vida e o ministério de Jesus. Era um dia pra ser esquecido, definitivamente riscado da história e de suas vidas.
Mas o que eles não sabiam é que quando a desesperança chega ao nível máximo é que a esperança pode nascer. Que é no momento de uma das piores dores que a vida irrompe. Que quando nossas mãos são vencidas pelo peso e nossa força pela realidade é que há espaço para intervenção além da realidade. Que só pela força inescrupulosa da noite escura que o sol quando nasce renova tudo ao seu redor.
Sim, era nesse ponto máximo de desesperança que a esperança era fecundada. Era na escuridão mais forte que a luz rompia os interditos e começava a raiar. Era na agonia aguda da morte que a vida vencia a morte e inaugurava um novo reino de vida, amor e verdade. Era na morte dos sonhos que um novo sonho rompia a rocha do túmulo e despertava a todos, definitivamente, para um novo sonho, uma nova história, novos planos e uma nova realidade para além do que os olhos veem. Na hora em que tudo parecia definitivamente perdido a salvação despontava como a aurora que só é percebida por quem passou a noite escura acordado ou perdeu seu sono em meio a ela por tamanha angústia.
Mas eles não sabiam. Nós não sabemos. Nós nunca sabemos.
Nós nunca sabemos o que acontece nos bastidores. Nós nunca saberemos os movimentos divinos de ressurreição. Nós nunca vemos a vida rompendo os casulos e voando. Em partes porque nessas horas de dor nossos olhos de forma míope se focam na dor e em suas causas e nunca no que ela pode gerar em nós; e segundo porque talvez se precisa chegar ao clímax da dor, ao vale da sombra da morte, pra entender que mais importante do que o hálito da morte e suas infâmias chegando ao ouvido é saber que você não esta sozinho e o vale da morte é a contradição perfeita pra que possamos perceber de forma mais aguda a presença de quem em meio ao vale da morte nos conduz em segurança rumo a pastos verdes e refrigérios. A noite escura é a ocasião ideal para que valorizemos cada raio de sol, luz e esperança que o amanhecer traz quando surge.
Mas apesar de não sabermos algo está sendo realizado. Apesar da esperança já ter definhado há uma ressurreição em curso. Apesar dos novos planos que alinhavamos na mente o plano original está, nesse momento, rompendo com força e poder a rocha do túmulo.
Nós não sabemos. Mas apesar de não sabermos, Aquele que É continua fazendo por nós o que não acreditamos mais a despeito de nossa ignorância. Nós não mais cremos. Mas apesar de não mais crermos o Autor e Consumador da fé crê em nós e nos convida ao raiar do domingo a uma nova fé, uma nova instância, um novo relacionamento, um novo engajamento, uma nova vida.
Ele sempre É e faz apesar de nós. Aleluia!
Você não sabe, mas o amanhã está surgindo. A manhã esta sendo produzida e em breve dará seus primeiros sinais. A morte dará lugar à vida. A desesperança será destituída por uma esperança eterna. Você não sabe, mas amanhã é domingo, dia de vida e ressurreição. Amanhã Ele enxugará dos seus olhos toda a lágrima. Amanhã os caídos serão erguidos, os tristes alegrados, o luto transformado em festa. Amanhã o choro de toda a noite dará lugar à alegria da manhã.
Amanhã… de manhã… há manhã!
Texto de : Thiago Henrique

Nenhum comentário: