quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Oração Ao Tempo

Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...

O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...

Caetano Veloso

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Escolhas de uma vida ...

A certa altura do filme Crimes e Pecados, o personagem interpretado por Woody Allen diz: "Nós somos a soma das nossas decisões".

Essa frase acomodou-se na minha massa cinzenta e de lá nunca mais saiu. Compartilho do ceticismo de Allen: a gente é o que a gente escolhe ser, o destino pouco tem a ver com isso.

Desde pequenos aprendemos que, ao fazer uma opção,estamos descartando outra, e de opção em opção vamos tecendo essa teia que se convencionou chamar "minha vida".

Não é tarefa fácil. No momento em que se escolhe ser médico, se está abrindo mão de ser piloto de avião. Ao optar pela vida de atriz, será quase impossível conciliar com a arquitetura. No amor, a mesma coisa: namora-se um, outro, e mais outro, num excitante vaivém de romances. Até que chega um momento em que é preciso decidir entre passar o resto da vida sem compromisso formal com alguém, apenas vivenciando amores e deixando-os ir embora quando se findam, ou casar, e através do casamento fundar uma microempresa, com direito a casa própria, orçamento doméstico e responsabilidades.

As duas opções têm seus prós e contras: viver sem laços e viver com laços...

Escolha: beber até cair ou virar vegetariano e budista? Todas as alternativas são válidas, mas há um preço a pagar por elas.

Quem dera pudéssemos ser uma pessoa diferente a cada 6 meses, ser casados de segunda a sexta e solteiros nos finais de semana, ter filhos quando se está bem-disposto e não tê-los quando se está cansado. Por isso é tão importante o auto conhecimento. Por isso é necessário ler muito, ouvir os outros, estagiar em várias tribos, prestar atenção ao que acontece em volta e não cultivar preconceitos. Nossas escolhas não podem ser apenas intuitivas, elas têm que refletir o que a gente é. Lógico que se deve reavaliar decisões e trocar de caminho: Ninguém é o mesmo para sempre.

Mas que essas mudanças de rota venham para acrescentar, e não para anular a vivência do caminho anteriormente percorrido. A estrada é longa e o tempo é curto.Não deixe de fazer nada que queira, mas tenha responsabilidade e maturidade para arcar com as conseqüências destas ações.

Lembrem-se: suas escolhas têm 50% de chance de darem certo, mas também 50% de chance de darem errado. A escolha é sua...!

Coisas ruins não são o pior que pode nos acontecer. O que de pior pode nos acontecer é NADA.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

"As vivencias mais nossas não são nada tagarelas.."

Guardo aqui em meus arquivos um texto do meu amigo Jonathan, que muito me agrada nas suas entrelinhas ao dissecar o velho, bom e morto filósofo "Nietzsche", compartilhando ...


Aprender a me silênciar diante do que a mim se apresenta como incrível, tem sido uma grande guerra. Quantas vezes, algo se deu com tamanha dimensão aos nossos ólhos ciumentos e que nos foi imperativo compartilhar tal incrível, e a pessoa que nos ouve descontrói com seus sons ou com sua face o nosso estado de torpor. Nos diz: é isso que te emociona? Tentar explicar nesta hora é loucura. A nossa experiência só o é incrível porque atrás de si tem todos os nossos anos vividos, a força das nossas ilusões e tudo o que fizemos e deixamos de fazer, o modo único pelo o qual sentimos, os entuasiamos únicos de nossa existência. Aí, porque nós somos nós é que uma situação nos é tão aprecível. Ora, esta unicidade que se mostra nos nossos paladares, é factual em todas as nossas experiências...


sábado, 15 de agosto de 2009

O mínimo do mínimo ...

Hoje, fazendo minhas leituras avulsas, me deparei com esse texto do Boff, o que dele aprendo e repasso é exatemente a questão que tem confrontado tantos e tantos que defendem suas ideologias, sem muita das vezes refletir sobre os efeitos que estabelecem em si mesmo, mesmo q isso se chame Cristianismo ou qualquer outra coisa.
Boa leitura!
Se um imigrante coreano que nada sabe de cristianismo me pegasse pelo colarinho e me perguntasse: “vem cá, me diga em duas palavras, o que é o cristianismo”? Que diria?
Não sei. Talvez para sair da perplexidade o mandaria para uma favela onde trabalham as Irmazinhas de Jesus, do Pe. Foucauld, no meio dos mais pobres dos pobres. Ai pelo menos veria o que pode o cristianismo em termos de amor e compaixão para com os que mais sofrem. Ou manda-lo-ia para Ouro Preto para ver o que a fé cristã produziu em termos de arte. Ou manda-lo-ia ouvir a missa do Pe. Maurício, cantada pelos Canarinhos de Petrópolis para deixar-se tomar pelo enlêvo esipiritual que ela suscita.
Mas se ele me dissesse: “fora com tudo isso, pois você me apresenta apenas expressões culturais. O eu quero é saber o mínimo do mínimo do cristianismo. Que propõem, finalmente, os cristãos? Em duas palavras”!
Seguramente é possível dizer em duas palavras o que seja o cristianismo. Senão que sentido teria para uma pessoa comum, que não é teóloga? É uma questão que muitos colocam também os cristãos.
As Igrejas complicaram tanto a resposta que elas mesmas perderam o sentido do essencial. Geralmente anunciam a si mesmas ao invés do cristianismo. Ou nos apresentam o Catecismo da Igreja Católica com 744 páginas e 2858 números. Ai, se crê que está todo o arsenal da fé cristã. Mas, perdoa-me Deus, não vou castigar o coreano com esse Catecismo. Seguramente sairia correndo, assustado, ou falo-ia arma sobre minha cabeça.
Essa questão me reporta ao primeiro século de nossa era, quando um dos torturadores de cristãos perguntou de chofre a um mártir: “afinal o que é o cristianismo”? Esse respondeu secamente: ”dico tibi mysterium simplicitatis”, “digo-te um mistério de simplicidade”. Que mistério é esse? As Atas dos Mártires não recolheram a resposta. Talvez porque era tão evidente que nem valia a pena registrá-la por escrito. Mas nós que perdemos a inocência matinal, não sabemos mais nada. Por isso, a questão do torturador e do coreano permanece ainda válida.
Mas podemos imaginar o que o mártir teria dito: “Deus nos amou tanto que se fez também um de nós. E nos amou até o fim, mesmo quando nos fizemos seus inimigos. Pois, o pregamos na cruz. Mas, por surpresa de todos, ressuscitou ao terceiro dia. E agora está aqui em nosso meio. De sua boca ouvimos e de sua vida aprendemos: quem tem o amor tem tudo, pois, o amor é o nome próprio de Deus. Por isso, devemos amar a todos, incondicionalmente, como te amo a ti que me torturas e me condenas à morte”.
Bem, se sob “misterio da simplicidade” entendermos tal coisa, podemos dizer que se trata do mínimo do mínimo. E essa resposta honra os cristãos. Pena que não vivemos conforme esse minimalismo essencial. Teríamos menos ódios e menos impiedade face aos pobres e excluidos.
Hoje, depois de tantos séculos, sentimos necessidade de dizermos a nós mesmos o que significa esse “mistério de simplicidade”. Por minha parte, repetiria a mesma lição do mártir: quem tem amor tem tudo, tem o próprio Deus. E mais não digo, pois seria supérfluo e tagarelice de teólogo.
Leonardo Boff